Em 2026, queremos mulheres vivas: sobre o direito existir em um país que mata 04 mulheres por dia

Uma reflexão jurídico-social sobre a responsabilidade do Estado no escalonamento da violência de gênero no Brasil.

Eu gostaria que minha primeira publicação do ano fosse sobre fé, amor ou esperança. Mas, passada a euforia das festas de final de ano e de volta à vida normal, sinto que não consigo escrever sobre qualquer assunto que não seja Tainara Souza Santos, de 31 anos, que morreu na véspera de Natal, após 25 dias de luta pela vida.

 

As confraternizações de fim de ano de centenas de mulheres em todo o país foram atravessadas pela comoção (e legítima indignação) diante de sua morte, vivida como uma espécie de “trauma coletivo”, após acompanharmos, com apreensão, sua internação hospitalar e a expectativa de que ela pudesse sobreviver.

 

No dia 25 de dezembro, o Brasil amanheceu cinza, com mais um nome que se soma à longa lista de mulheres mortas pelo simples fato de serem mulheres.

 

Tainara foi atropelada e arrastada por cerca de 1 km na Marginal Tietê, uma das vias mais movimentadas do mundo. A brutalidade do crime chocou o país e escancarou a misoginia e o machismo estrutural que alimentam e sustentam o feminicídio.

 

Tainara era uma mulher jovem, alegre e que gostava de dançar. Empreendedora, mãe de dois, tinha afetos, sonhos e projetos que jamais serão realizados, porque lhe foi negado o direito mais básico assegurado em qualquer Estado de Direito: o de continuar viva.

 

Desviar os olhos da realidade não é mais uma opção. Passado o período das festas, iniciamos o ano com um desejo que já não cabe em eufemismos. O que queremos para 2026 é continuarmos vivas. Não se trata de sensacionalismo ou de um ideal abstrato, mas de uma exigência mínima em um país que figura entre os que mais matam mulheres no mundo.

 

Em 2025, o estado de São Paulo registrou o maior número de feminicídios e de agressões contra mulheres de sua história. Dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) mostram que, no ano passado, o Brasil ultrapassou mil vítimas de feminicídio — o que representa, em média, quatro mulheres assassinadas por dia.

 

Os dados, por si só, já são insuportáveis. Mas, quando a estatística ganha nomes, rostos e histórias interrompidas, o que se revela é um padrão reiterado de violência, negligência, naturalização e permissividade social.

 

Dizer que queremos mulheres vivas significa exigir políticas públicas efetivas, investimento em prevenção, proteção real às mulheres em situação de risco, campanhas de comunicação que dialoguem com realidades diversas, ferramentas de responsabilização que não dependam apenas do cárcere e uma Justiça que atue de forma eficaz, responsabilize o agressor e reduza a reincidência.

 

A causa (e o progressivo escalonamento) da violência contra as mulheres não se resume à existência de homens violentos, mas envolve uma engrenagem social que normaliza, relativiza e silencia, somada à omissão reiterada de um Estado que falha em proteger e prevenir.

 

2026 é ano de eleição. Que saibamos nos orientar pela verdade, por dados, estatísticas e compromissos reais — e não por falsas promessas ou comoções tardias.

 

Não queremos palavras soltas em palanques, nem indignações desacompanhadas de ações efetivas. É preciso coragem, responsabilidade e honestidade para reconhecer que, independentemente de ideologias políticas ou partidárias, os últimos anos foram devastadores para as mulheres brasileiras.

 

Para além de uma guerra cultural “Direita x Esquerda”, a discussão precisa ser assumida por agentes políticos de todo o espectro, ainda que sob rótulos distintos — família, valores, segurança pública —, mas com um mesmo desafio institucional: reduzir a violência contra as mulheres.

 

Combater a violência de gênero exige esforço, trabalho, investimento e paciência. Mas é urgente.

 

Que, em 2026, continuemos vivas para reivindicar nosso direito a uma vida sem violência.


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